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Um moço com viagens a fazer e louça pra lavar.

Rua Teodoro Sampaio com Joaquim Antunes, 16h

Casal se beijando se parece (assustadoramente) com o quadro “O beijo”, de Klimt: ele se curva daquele jeito torto e entregue e ela, nem tão mais baixa do que ele, recebe o beijo que a pele retribui. O que o levaria a adotar essa curvatura?

Enquanto isso uma moça sozinha bebe café em copo americano em “Meu Rico Português”, esquina da Teodoro com a Francisco Leitão, e curva-se sobre si mesmo no mesmo ângulo do quadro. Talvez o casal esteja em seu campo de visão, talvez ela esteja mais encantadora Assim. Mas não há tempo de ver nada melhor e não é possível vê-la como era antes ou como seria depois. Eu sou a própria passagem.

Londres

Eu vi uma Sombra queimada
Na Oxford Street
Eu vi Paris umedecida
ás vezes, em você
Eu vi num mar de olhos verdes o Balão do Jaguaré.
(Jaguaré´s Roundabout)
Eu me vi com Kate and Emma em
-Horizonte vertical de um Backyard-
(Tudo era festa e fingíamos não ser)
Eu vi uma certa doçura
nesse sarcasmo mais cruel
Eu vi uma célula de Caetano
entristecendo em Portobello
Eu vi o Soho se Endireitar num trêmolo
Vazios limpos sorrisos
corpos imersos em Tap Water

Não vi Fliperamas

Eu apenas ouço Caetano cantando “For No One”

Cry for no one, seria mesmo possível chorar por ninguém? será mesmo possível? por uma presença ausente? Posso imaginar presenças ausentes correndo pelos apartamentos e corredores de 1975, migrando pelas sacadas da Avenida Atlântica, ressurgindo em Belo Horizonte, desligando-se do mar da Tailândia para serem des-vistas, segundos depois, no Mar do Japão
No Mar do Japão emerge um corpo num estado anterior á melancolia, displicentemente tentando não chegar lá. O Corpo de repente desiste de tomar forma e cor e fica ali, como um Banana Boat abandonado numa praia deserta de Salvador, esperando que alguem possa se divertir pois não foi feito para outra coisa (salvar vidas, talvez)

Desespero Amigo do Butantã

João Sbarai
Jamais encontrará seu amigo
Eiras Garcia

Ambos se encontrariam soterrados
num inferno verde sem nome, ou com vários nomes
e as ruas são ilustradas por cigarras

Há um sítio nearby
e nada é inglês no heyday da babilônia

Trancorria-se os anos 40, ou 30 e o nada do bairro existia,
apenas a respiração verde que sufoca os insones
rejeita alguma eletricidade.

Não se ouvia uma palavra em português
Sidarta encontrado dentro de uma capivara selvagem
as Lontras conspiravam contra os poucos livros
Os Quatis escrevem na madeira Viva

E agora Tudo é vaga a ser disputada pelas grades
que disparam pelos anos em demasia

No Alto da Lapa

No Alto da Lapa
O Silêncio se dissolve em Luvas
No Alto da Lapa
Tudo é Vespertino
E as casas estão vestidas com Edículas
e, ás vezes, surgem prédios, cujos apartamentos são menores que as Edículas
e as pessoas se liquefazem e andam quilometros
 
Na Cerro Corá
Presenciei um acidente polar de minha alma
No salão de festas os primos e primas se beijam e meus olhos segredam diante do
psiquiatra
Na Rua Bairy
os tijolos se ausentam e os corpos de Aurélias des-sorriem secreções geladas
pois algo parecido com cálido se anuncia e inquieta e quase encanta.
 
E os olhos em travelling deschavam
as ruas sérias que escondem sem esconder

Proximidades da praça República Eslováquia, Pacaembu, 20h.

Me perco por essas ruas, quase por acidente. 

Estaria com medo se eu fosse outra pessoa: As ruas são desertas, há poucas luzes, não se ouve quase nada. As casas ao redor são enormes, lindas e parecem vazias. Muitas tem placa de “vende-se”. Não há padarias, não há vendedores de amêndoas, não há crianças. Os guardas (únicos habitantes das ruas) não ouvem rádio. Uma garota sutilmente elegante desce de um taxi e isso é tudo.

De repente ouço um samba tocando na distância. Sem tamborim, com bateria talvez. Não reconheço a casa que solta esse som

Me pergunto quem vem morar nesse tipo de lugar.